30 de julho de 2026 16:42

Estão arrancando a alma da Chapada

Por Laura Lucena

 A destruição de uma cidade nem sempre acontece com tratores. Às vezes, ela chega de forma silenciosa, escondida atrás de projetos, placas, interdições, licenças, estudos intermináveis e decisões tomadas em gabinetes distantes da realidade.

 É exatamente isso que está acontecendo com Chapada dos Guimarães. A fotografia feita pela guia de turismo Opila registra muito mais do que uma placa amarela do Sesc na Salgadeira.  Ela registra uma forma de pensar que parece ter se instalado sobre a Chapada: a de que a paisagem pode ser tratada como um detalhe.

 Não pode. A paisagem é o nosso maior patrimônio. Quem sobe a MT-251 não está indo apenas visitar um complexo turístico. Está entrando em um dos cenários naturais mais belos do Brasil. Os paredões de arenito são o verdadeiro portal da Chapada. Sempre foram. Agora, esse portal disputa atenção com uma placa gigantesca, desproporcional, que agride visualmente um dos cartões-postais do Estado. Não se trata de ser contra o Sesc. Trata-se de exigir bom senso.

 Em qualquer destino turístico sério do mundo, a arquitetura e a sinalização procuram dialogar com a paisagem. Aqui parece acontecer exatamente o contrário: a paisagem é obrigada a dialogar com a vaidade das obras. E essa não é uma discussão isolada. Há mais de dois anos o Portão do Inferno transformou-se no símbolo da incapacidade dos governos de encontrar soluções que conciliem segurança, preservação ambiental e desenvolvimento econômico.

 Dois anos. Dois anos de prejuízos para hotéis. Para pousadas. Para restaurantes. Para artesãos. Para motoristas. Para agências. Para os guias de turismo. Para toda uma cidade cuja principal vocação econômica é receber visitantes. Quem calcula esse prejuízo? Quem indeniza quem perdeu renda? Quem responde pelas empresas que fecharam ou pelos profissionais que abandonaram a atividade? Ninguém. Enquanto isso, multiplicam-se projetos que parecem ignorar completamente o valor da paisagem.

 Agora fala-se na instalação de grandes antenas na região do Véu de Noiva. Mais estruturas metálicas. Mais impacto visual. Mais uma cicatriz em um patrimônio natural que deveria ser tratado com extremo cuidado. O mais revoltante é perceber que quem conhece profundamente a Chapada quase nunca participa dessas decisões. Os guias de turismo caminham diariamente por essas trilhas. Conversam com visitantes do Brasil e do exterior. Sabem exatamente o que encanta quem chega aqui. Mesmo assim, continuam sendo ignorados.

 O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que deveria ser um grande aliado da conservação inteligente, muitas vezes transmite a sensação de que preservar significa apenas proibir. Parece faltar uma compreensão mais ampla de que conservar também é proteger a experiência da paisagem, ouvir a população local e reconhecer que turismo sustentável não é inimigo da natureza. Já o Governo do Estado parece enxergar a Chapada muito mais como um problema de engenharia do que como um patrimônio cultural, ambiental e turístico.

 Não é. Chapada não é um canteiro de obras. Não é um laboratório. Não é um espaço onde cada gestor deixa sua marca sem perguntar o que ficará para as próximas gerações. A MT-251 não é uma rodovia qualquer. É uma estrada-parque. Cada curva foi desenhada pela natureza muito antes de qualquer governo existir. Cada paredão conta milhões de anos da história geológica da Terra. Cada mirante emociona milhares de pessoas todos os anos. Tudo isso merece respeito. O Ministério Público precisa acompanhar com muito mais atenção o conjunto dessas intervenções. Não basta verificar se existe licença.

 É preciso perguntar se existe respeito pela paisagem. Se existe participação da sociedade. Se existe planejamento. Se existe visão de futuro. Porque desenvolvimento não é cobrir a Chapada de placas, antenas, concreto e obras monumentais. Desenvolvimento é fazer com que a natureza continue sendo a protagonista. A Chapada dos Guimarães não precisa de mais monumentos construídos pelo homem. Ela já possui o maior deles. Foi esculpido pelo tempo. E está sendo lentamente escondido pela incapacidade de compreender que a maior riqueza desta terra não é aquilo que se constrói.  É justamente aquilo que jamais poderá ser reconstruído, caso seja perdido. Ainda há tempo de mudar esse caminho. Mas o tempo está passando. E, junto com ele, corre o risco de desaparecer aquilo que faz da Chapada um lugar único no planeta.

Laura Lucena é jornalista, produtora cultural, escritora, poetiza e guia de turismo, moradora de Chapada desdesde 2011 e apaixonada pela região desde 1977.

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